quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Karate Kid – Um final alternativo




            Chegara o momento.

            Johnny Laurence estava concentrado em duas coisas e duas coisas apenas. Vencer Daniel Larusso e lhe proporcionar muita dor no processo.

            A cada ponto que Johnny conquistava subitamente ele o perdia submento Daniel a momentos de dor e angústia. O seu adversário já havia sido castigado pelos seus colegas da Cobra Kay, instruídos pelo seu Sensei a agirem de forma brutal e submeter aquele nerd e o seu mestre japonês a momentos de angústia e desespero.

            - Acaba com ele Johnny!

            O grito do seu Sensei era o aviso de que a parte divertida já devia acabar.

            Era o momento de vencer o campeonato, consagrando assim a sua carreira como lutador “do Vale” e também retirando aquele hiato no que pretendia ser uma história de surras e humilhações ao cara que havia roubado sua ex e ainda por cima o humilhado em mais de uma situação.

            Johnny viu o olhar que Daniel dirigiu ao seu mestre japonês, Miaji ou Miagui, ou seja lá como o desgraçado se chamava. O velho idiota que convencera o seu Sensei a decidirem o futuro de Daniel ali, sobre o tatame.

            Seu Miyagi também estava nos planos de Johnny e seu Sensei.

            O velho salvara Daniel de uma surra merecida e ainda por cima humilhara Johnny e seus amigos. Aquilo não sairia barato. Após vencerem o campeonato e terem o direito de infernizar Daniel Larusso até o dia que o idiota tivesse o bom senso de ir embora da cidade ou quem sabe tomasse vergonha na cara e pedisse perdão todos os dias de joelhos, o velho oriental seria o próximo em sua lista de maldades.

            - Prontos? Lutar!

            O Juiz deu o sinal e Johnny entendeu que os olhares trocados entre Daniel e o seu Sensei era algum tipo de sinal para que Daniel usasse algum tipo de golpe secreto. Ele se apoiava em sua perna boa e mantinha a outra machucada no ar, abrindo os braços como se imitasse o movimento de uma garça.

            Johnny partiu para cima de Daniel e viu o que imaginava que ia acontecer: a perna de apoio subindo, em direção ao seu rosto, o golpe derradeiro que significaria a sua derrota.

            Felizmente Johnny não era um vilão de filme da sessão da tarde.

            Ele treinara Karate na academia Cobra Kay desde que era pequeno. Foram anos de treino e mais treino, suor e sofrimento para saber lidar com golpes ridículos como aquele. Até uma criança de dez anos teria coreografado aquele golpe pífio e, sem sombra de dúvida, só um mongoloide o levaria.

            Esquivando para a esquerda, um segundo antes do pé de Daniel o acertar, Johnny soltou o ar com tudo, enquanto deixava o seu punho golpear o tórax do inimigo e o jogar no chão sem ar.

            - Ponto decisivo. Johnny Lawrence é o campeão.

            O lutador loiro não sabia o que era melhor: a cara de dor e desespero de Daniel, com o bônus das lágrimas que corriam fartas, a cara de desolação do Seu Miyagi, contemplando o pupilo em agonia ou a cara de tristeza de Alli Mills, sua ex que agora estava fadada a namorar um fracassado.

            Os membros da Cobra Kay abraçavam Johnny, sorriam e davam tapinhas em suas costas, como se o que ele fizera fosse um grande feito.

            Chegava a sentir pena de Daniel, mas o sentimento de prazer ao pensar que poderia o esmurrar todos os dias de sua vida dali para frente era, sem dúvida, muito maior.

            - Parabéns Daniel, você lutou bem.

            Johnny falava alto para que quem estivesse próximo achasse que estava consolando o adversário derrotado. Quando chegou perto, soltou entre dentes as palavras que aguardara tantos dias para proferir ao seu desafeto:

            “Se prepara moleque. Daqui para frente você vai saber o que é dor.”

            Maior do que o troféu, a recompensa de ver o medo puro e verdadeiro nos olhos de Daniel fizeram com que Johnny sentisse o júbilo de sua vitória. As pessoas já os separavam em suas comemorações e desejo de cuidar do ferido. Johnny ainda teve tempo de falar mais quatro palavras, que pontuavam o futuro de ambos.

            “Bem vindo ao inferno!”

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Curtindo a vida adoidado!


- Ferris, o que você vai fazer ainda dentro?
            
- Esperem só um pouco, já volto... tenho que olhar meu carro.

            Enquanto esperavam do lado de fora do estacionamento, Cameron e Sloane tentavam imaginar o que o velho amigo teria em mente.

            - Eu não sei, acho que ele vai tentar encontrar um daqueles desfiles novamente e vai dar um show, só para variar.

            - Não sei, Cameron, não é do feitio do Ferris repetir travessuras. Acho que temos que ter a mente bem aberta, pois dele qualquer coisa pode vir.

            - Hum, veremos.

            - Vocês vêm ou não vêm?

            Quando Cameron e Sloane se viraram para olhar para Ferris, quase caíram para trás por conta do carro que ele dirigia.

            - Caramba Ferris! Um Porche Spyder 550, ano 1953! Como você conseguiu comprar um desses?

            - Ora Cameron, você acha que professor ganha tão pouco assim?

            - Não, não é isso... é muito difícil achar um desses. Cara, nem acredito que você tem um Porche Spyder!

            - Talvez eu o te dê de presente, ou quem sabe te deixo dirigir. Agora subam que temos muita coisa para fazer.

            Ferris tentou não demonstrar ciúmes quando Sloane sentou no colo de Cameron no outro acento de passageiros. Ele ainda tentava se acostumar com tudo aquilo e por isso precisava relaxar, deixar tudo fluir para dar certo. Dando a partida, ficou experimentando o motor.

            - Não parece o ronronar de um filhote de gato?

            - Parece sim... muito bom... muito bom... mas vamos embora... parece que nunca ligou o seu carro antes!

            - Verdade, vamos embora.
           


            - Ferris? Ferris Bueller! Venha aqui agora!

            - Quem está ai?

            Ao ouvir a voz feminina, Rooney tinha certeza que tinha pego o maldito daquela vez.

            Ele deveria ter faltado para fazer algum tipo de farra em sua casa. E isso que mal era hora do almoço. Além de preguiçoso, Ferris se mostrava um degenerado... o que seria suficiente para o expulsar de vez do colégio e do corpo docente. Rooney mal conseguia esconder o contentamento.

            - Eu sou o Diretor Rooney, da escola em que Ferris trabalha. Mande ele vir aqui agora, ou avise que terá muitos problemas.

            - Me desculpe, Rooney... ele está de cama. Quem fala aqui é a irmã dele.

            - Jeane?

            - A não ser que ele tenha outra irmã.

            - Jeane, mande seu irmão vir aqui agora.

            - Rooney, você é surdo? Ele está de cama... deixe o descansar, por Deus! Você quer levar meu irmão para a sepultura do tanto que cobra ele? O deixe em paz!

            - Jeane, eu vou entrar ai senão o fizer vir aqui!

            - Igual da última vez? Eu não tenho mais a flexibilidade de antes... mas não acredito que tenha dificuldades de vencer um senhor de 82 anos.

            - 75!

            - Que seja... mas sabe muito bem o que acontece se entrar aqui. E dessa vez eu tenho um taco de baseball. Fique à vontade para tentar.

            - Eu vou voltar, Jeane... seu irmão não vai escapar de mim... eu vou voltar!



            - Para onde estamos indo, Ferris?

            - Bem, está na hora do almoço... então vamos para um lugar especial.

            - Mas ali é o colégio! Você está louco? Se o Rooney te pegar, vai arrancar o seu couro.

            - Relaxa, eu sei me virar.

            Quando Ferris estacionou o Porche, os alunos que estavam perto do estacionamento vieram correndo ver o carro novo de seu professor.

            - Nossa prof, não sabia que ganhava tão bem...

            - Pois é... continuem estudando e um dia ficarão tão bem quanto eu.

            Cameron começou a ficar preocupado com o que ouvia. Ele começou a reparar que já tinha visto aquele carro em algum lugar, com alguém que conhecia. De repente a lembrança lhe pegou de súbito e o coração quase lhe saiu pela boca.

            - Ferris, esse carro é seu, não é?

            - Nesse momento sim.

            - Pelo amor de Deus, Ferris... não me diga que você roubou esse carro!

            - Claro que não roubei, Cameron. Só se constitui roubo quando tomamos algo de alguém... e eu pretendo devolver ele... no final de nossa aventura.

            - Ferris, seu doido! Esse carro é do senhor Xaiou Lee! Meu cliente de Hong Kong! Você vai acabar com minha vida! Você não tem ideia de como vou perder dinheiro por conta disso.

            - Relaxa, Cameron... ele só pega o carro no final do dia. Eu vou devolver bem antes.

            Sloane pegou Cameron pela mão, algo que fazia sempre que ele ficava nervoso e o levou para dentro do colégio.

            - Calma Cameron... você sabe que nunca pegaram o senhor Ferris Bueller.

            - A não ser aquela vez, a Ferrari do meu pai...

            - Bem, até onde eu lembro, foi você que a jogou no mato, não foi?

            - Sim, mas...

            - Relaxe... vamos almoçar... estou com saudades da comida horrível do colégio. Ela melhorou Ferris?

            - Vou deixar você se surpreender, meu amor.

            Conforme Sloane e Cameron adentravam o velho colégio, eram assaltados pelas memórias de um passado feliz e intenso. Tantas aventuras ocorreram ali, com os três amigos, era quase estranho que tudo aquilo tivesse desvanecido por tanto tempo. O casal se abraçou e andou junto, admirando o 
lugar.

            O assombro só se foi quando perceberam que Ferris estava mais uma vez aprontando alguma coisa.

            Ele se encontrava cercado de alunos, que queriam saber quem eram os seus amigos e porque ele não tinha vindo dar aula. Quando o casal se aproximou, assistiu uma de suas apresentações clássicas de doença e angústia.

            - Isso mesmo... e é contagioso. Então prestem atenção... façam as tarefas das páginas 89 até 98 e estudem todo o capítulo. Semana que vem vamos discutir sobre as ideias de Platão nos tempos atuais.

            - Sim, professor Ferris.

            - Agora se me derem licença meus amigos que estão cuidando de mim vão me levar até o refeitório, aonde vamos comer alguma coisa, pois estou muito fatigado.

            Enquanto rumavam para o velho refeitório, com suas mesas e cadeiras de metal e plástico, Sloane tentava não rir do descaradamento do seu ex e Cameron apenas demonstrava a antiga cara de perplexidade, a mesma que fazia desde os seus primeiros anos de amizade.

            - Eu não sei como tem gente que ainda cai na sua lábia, professor Ferris Bueller.

            - Cameron, as pessoas acreditam naquilo que querem acreditar... a vida sempre foi assim. Somos nós que acabamos mudando de vez em quando.

            - Sei, mas aparentemente você nunca muda.

            - Eu mudei muito, assim como você, velho amigo. Vamos comer alguma coisa e depois partimos para alguma coisa mais excitante.

            - Quer dizer que vir até o colégio que trabalha, no dia que resolveu matar trabalho já não foi o 
suficientemente excitante? Vamos voltar e você vai deixar o carro do senhor Lee na garagem dele. Ai 
podemos fazer algo mais tranquilo.

            - Calma Cameron. Coma as suas batatas e depois partimos. Te dou minha palavra de que devolverei o carro inteiro e sem um arranhão.
            - Tá, tá.

            - Que lugar é esse Ferris?

            Cameron e Sloane, acostumados como estavam com o conforto de uma vida suburbana, nunca tinham entrado em um velho ginásio de boxe. O lugar cheirava a mofo e suor velho. Alguns jovens treinavam pulando cordas ou socando sacos de pancada. Ninguém parecia se incomodar com a presença dos três.

            - Bem, eu acho que está na hora de resolvermos as coisas, Cameron. Você roubou minha garota... agora eu vou roubar a sua dignidade.

            - Ferris, do que você está falando? Achei que tinha ficado tudo bem entre a gente! Que loucura é essa agora?

            - Vamos Cameron... vista um par de luvas e vamos lutar pelo amor de Sloane. O vencedor a leva para a casa. O perdedor fica com nada.

            Cameron olhou assustado para a sua mulher e viu que essa estava quase chorando de rir. Era evidente para ela que o marido esperava que falasse algo para acabar com tal loucura. Mas a artista estava se divertindo tanto com os sustos do marido, que ultimamente parecia tão frio, que mal podia sentir vontade de interferir.

            - Ora meu amor... você já me ganhou uma vez... então acho que consegue uma segunda.

            - Você só pode estar brincando!

            - Vamos Cameron, deixe de ser um covarde.

            - Eu não sou covarde. Se prepare, senhor Ferris Bueller... vai levar a maior surra de sua vida!

            Ferris e Cameron subiram ao ringue e colocaram luvas, capacetes e protetores bucais. Para Cameron, era evidente que Ferris já deveria ter feito aquilo em sua vida... mesmo que aparentemente fora de forma, ele gingava como se fosse um lutador de verdade e se aproximava de maneira ameaçadora.

            O primeiro soco de Ferris quase fez Cameron beijar a lona.

            Ele olhou incrédulo para o amigo, que havia o batido de uma maneira que nunca tinha feito em sua vida e sentiu a cabeça latejando aonde tinha sido acertado. Os golpes seguintes também o deixaram aturdido. Alguma coisa em sua mente o mandava reagir... mas tinha algo mais profundo... uma voz, uma antiga voz... algo que o intimidava.

            “Você nunca vai servir para nada, Cameron... nunca vai sair da barra da saia de sua mãe. Minha herança vai desaparecer com você.”

            - NUNCA!    

            Pegando Ferris de surpresa, Cameron deu uma sequencia de golpes incríveis, algo que poderia ser coisa de cinema. O amigo foi jogado com força para a lona e ficou deitado, sem se levantar.

            Quando voltou a si, Cameron percebeu que Sloane estava contando até dez, para encerrar o combate.

            - Oito, nove e dez! O vencedor!

            Sloane levantou o braço de Cameron e depois o abraçou e beijou com força.

            O advogado sentiu a adrenalina ainda forte em seu corpo e percebeu que não se sentia assim fazia muito tempo. Ele foi até Ferris e o ajudou a se levantar. O amigo sangrava de um corte no lábio superior e ainda soltava algumas lágrimas por conta dos socos que recebeu no rosto.

            - Nossa Cameron... agora entendi porque te chamam de “a fera de Chicago”.

            - Ah, nem me chamam assim!

            - Chamam sim. Se você soubesse a fama que tem entre os advogados... mas eu fico feliz que tenha vencido. Isso prova que é o melhor de nós dois.

            - Pare com isso... não temos que competir o tempo todo.

            - Você tem razão... vamos devolver o carro do senhor Lee. Já está ficando tarde.



            - Até mais, Ferris. E não deixe de nos ligar. Vamos fazer alguma coisa no final de semana.

            - Podem deixar. E não sumam vocês também!

            Enquanto seguia para casa, Ferris olhava o velho bairro com suas cercas-vivas e todas as recordações que ficaram guardadas em sua memória.

            Era muito bom estar de paz e de bem com os melhores amigos que tinha. Era como um peso enorme sendo retirado do peito. Ele só ficou triste que não deu tempo de encontrar algum desfile e cantar um pouco. Ai o dia seria perfeito.

            - Te peguei agora, Ferris Bueller... não tem como escapar!

            Ferris olhou na varanda de sua casa e viu o Diretor Rooney sentado na cadeira de balanço que seu pai mais adorava de usar nos finais de semana, enquanto lia os jornais. O velho diretor estava claramente abatido e muito suado, mas tentava manter um ar de dignidade e seriedade.

            - Senhor Rooney, fico comovido que tenha vindo aqui me visitar.

            - Ferris... eu estou aqui desde o almoço. Sei que não estava aqui antes, mesmo que sua irmã tenha me feito acreditar que estava.

            - Mas eu estava...

            - Não tente me enganar, Ferris... eu não sai daqui.

            - Por isso não me viu sair pelos fundos, não é?

            - O que?

            - Sim, eu fui até o colégio, para passar a tarefa para os meus alunos. Não te falaram?

            - Ferris, você não vai me escapar dessa vez, não vai!

            - Bem, foi bom falar com o senhor, mas eu tenho que descansar agora. Não quer que eu falte mais, não é? Boa tarde.