- Ferris, o que você vai fazer ainda dentro?
- Esperem só um pouco, já volto... tenho que olhar meu
carro.
Enquanto esperavam do lado de fora do estacionamento,
Cameron e Sloane tentavam imaginar o que o velho amigo teria em mente.
- Eu não sei, acho que ele vai tentar encontrar um
daqueles desfiles novamente e vai dar um show, só para variar.
- Não sei, Cameron, não é do feitio do Ferris repetir
travessuras. Acho que temos que ter a mente bem aberta, pois dele qualquer
coisa pode vir.
- Hum, veremos.
- Vocês vêm ou não vêm?
Quando Cameron e Sloane se viraram para olhar para
Ferris, quase caíram para trás por conta do carro que ele dirigia.
- Caramba Ferris! Um Porche Spyder 550, ano 1953! Como
você conseguiu comprar um desses?
- Ora Cameron, você acha que professor ganha tão pouco
assim?
- Não, não é isso... é muito difícil achar um desses.
Cara, nem acredito que você tem um Porche Spyder!
- Talvez eu o te dê de presente, ou quem sabe te deixo
dirigir. Agora subam que temos muita coisa para fazer.
Ferris tentou não demonstrar ciúmes quando Sloane sentou
no colo de Cameron no outro acento de passageiros. Ele ainda tentava se
acostumar com tudo aquilo e por isso precisava relaxar, deixar tudo fluir para
dar certo. Dando a partida, ficou experimentando o motor.
- Não parece o ronronar de um filhote de gato?
- Parece sim... muito bom... muito bom... mas vamos
embora... parece que nunca ligou o seu carro antes!
- Verdade, vamos embora.
- Ferris? Ferris Bueller! Venha aqui agora!
- Quem está ai?
Ao ouvir a voz feminina, Rooney tinha certeza que tinha
pego o maldito daquela vez.
Ele deveria ter faltado para fazer algum tipo de farra em
sua casa. E isso que mal era hora do almoço. Além de preguiçoso, Ferris se
mostrava um degenerado... o que seria suficiente para o expulsar de vez do
colégio e do corpo docente. Rooney mal conseguia esconder o contentamento.
- Eu sou o Diretor Rooney, da escola em que Ferris
trabalha. Mande ele vir aqui agora, ou avise que terá muitos problemas.
- Me desculpe, Rooney... ele está de cama. Quem fala aqui
é a irmã dele.
- Jeane?
- A não ser que ele tenha outra irmã.
- Jeane, mande seu irmão vir aqui agora.
- Rooney, você é surdo? Ele está de cama... deixe o
descansar, por Deus! Você quer levar meu irmão para a sepultura do tanto que
cobra ele? O deixe em paz!
- Jeane, eu vou entrar ai senão o fizer vir aqui!
- Igual da última vez? Eu não tenho mais a flexibilidade
de antes... mas não acredito que tenha dificuldades de vencer um senhor de 82
anos.
- 75!
- Que seja... mas sabe muito bem o que acontece se entrar
aqui. E dessa vez eu tenho um taco de baseball. Fique à vontade para tentar.
- Eu vou voltar, Jeane... seu irmão não vai escapar de
mim... eu vou voltar!
- Para onde estamos indo, Ferris?
- Bem, está na hora do almoço... então vamos para um
lugar especial.
- Mas ali é o colégio! Você está louco? Se o Rooney te
pegar, vai arrancar o seu couro.
- Relaxa, eu sei me virar.
Quando Ferris estacionou o Porche, os alunos que estavam
perto do estacionamento vieram correndo ver o carro novo de seu professor.
- Nossa prof, não sabia que ganhava tão bem...
- Pois é... continuem estudando e um dia ficarão tão bem
quanto eu.
Cameron começou a ficar preocupado com o que ouvia. Ele
começou a reparar que já tinha visto aquele carro em algum lugar, com alguém
que conhecia. De repente a lembrança lhe pegou de súbito e o coração quase lhe
saiu pela boca.
- Ferris, esse carro é seu, não é?
- Nesse momento sim.
- Pelo amor de Deus, Ferris... não me diga que você
roubou esse carro!
- Claro que não roubei, Cameron. Só se constitui roubo
quando tomamos algo de alguém... e eu pretendo devolver ele... no final de
nossa aventura.
- Ferris, seu doido! Esse carro é do senhor Xaiou Lee!
Meu cliente de Hong Kong! Você vai acabar com minha vida! Você não tem ideia de
como vou perder dinheiro por conta disso.
- Relaxa, Cameron... ele só pega o carro no final do dia.
Eu vou devolver bem antes.
Sloane pegou Cameron pela mão, algo que fazia sempre que
ele ficava nervoso e o levou para dentro do colégio.
- Calma Cameron... você sabe que nunca pegaram o senhor
Ferris Bueller.
- A não ser aquela vez, a Ferrari do meu pai...
- Bem, até onde eu lembro, foi você que a jogou no mato,
não foi?
- Sim, mas...
- Relaxe... vamos almoçar... estou com saudades da comida
horrível do colégio. Ela melhorou Ferris?
- Vou deixar você se surpreender, meu amor.
Conforme Sloane e Cameron adentravam o velho colégio,
eram assaltados pelas memórias de um passado feliz e intenso. Tantas aventuras
ocorreram ali, com os três amigos, era quase estranho que tudo aquilo tivesse
desvanecido por tanto tempo. O casal se abraçou e andou junto, admirando o
lugar.
O assombro só se foi quando perceberam que Ferris estava
mais uma vez aprontando alguma coisa.
Ele se encontrava cercado de alunos, que queriam saber
quem eram os seus amigos e porque ele não tinha vindo dar aula. Quando o casal
se aproximou, assistiu uma de suas apresentações clássicas de doença e
angústia.
- Isso mesmo... e é contagioso. Então prestem atenção...
façam as tarefas das páginas 89 até 98 e estudem todo o capítulo. Semana que
vem vamos discutir sobre as ideias de Platão nos tempos atuais.
- Sim, professor Ferris.
- Agora se me derem licença meus amigos que estão
cuidando de mim vão me levar até o refeitório, aonde vamos comer alguma coisa,
pois estou muito fatigado.
Enquanto rumavam para o velho refeitório, com suas mesas
e cadeiras de metal e plástico, Sloane tentava não rir do descaradamento do seu
ex e Cameron apenas demonstrava a antiga cara de perplexidade, a mesma que
fazia desde os seus primeiros anos de amizade.
- Eu não sei como tem gente que ainda cai na sua lábia,
professor Ferris Bueller.
- Cameron, as pessoas acreditam naquilo que querem
acreditar... a vida sempre foi assim. Somos nós que acabamos mudando de vez em
quando.
- Sei, mas aparentemente você nunca muda.
- Eu mudei muito, assim como você, velho amigo. Vamos
comer alguma coisa e depois partimos para alguma coisa mais excitante.
- Quer dizer que vir até o colégio que trabalha, no dia
que resolveu matar trabalho já não foi o
suficientemente excitante? Vamos
voltar e você vai deixar o carro do senhor Lee na garagem dele. Ai
podemos
fazer algo mais tranquilo.
- Calma Cameron. Coma as suas batatas e depois partimos.
Te dou minha palavra de que devolverei o carro inteiro e sem um arranhão.
- Tá, tá.
- Que lugar é esse Ferris?
Cameron e Sloane, acostumados como estavam com o conforto
de uma vida suburbana, nunca tinham entrado em um velho ginásio de boxe. O
lugar cheirava a mofo e suor velho. Alguns jovens treinavam pulando cordas ou
socando sacos de pancada. Ninguém parecia se incomodar com a presença dos três.
- Bem, eu acho que está na hora de resolvermos as coisas,
Cameron. Você roubou minha garota... agora eu vou roubar a sua dignidade.
- Ferris, do que você está falando? Achei que tinha
ficado tudo bem entre a gente! Que loucura é essa agora?
- Vamos Cameron... vista um par de luvas e vamos lutar
pelo amor de Sloane. O vencedor a leva para a casa. O perdedor fica com nada.
Cameron olhou assustado para a sua mulher e viu que essa
estava quase chorando de rir. Era evidente para ela que o marido esperava que
falasse algo para acabar com tal loucura. Mas a artista estava se divertindo
tanto com os sustos do marido, que ultimamente parecia tão frio, que mal podia
sentir vontade de interferir.
- Ora meu amor... você já me ganhou uma vez... então acho
que consegue uma segunda.
- Você só pode estar brincando!
- Vamos Cameron, deixe de ser um covarde.
- Eu não sou covarde. Se prepare, senhor Ferris
Bueller... vai levar a maior surra de sua vida!
Ferris e Cameron subiram ao ringue e colocaram luvas,
capacetes e protetores bucais. Para Cameron, era evidente que Ferris já deveria
ter feito aquilo em sua vida... mesmo que aparentemente fora de forma, ele
gingava como se fosse um lutador de verdade e se aproximava de maneira
ameaçadora.
O primeiro soco de Ferris quase fez Cameron beijar a
lona.
Ele olhou incrédulo para o amigo, que havia o batido de
uma maneira que nunca tinha feito em sua vida e sentiu a cabeça latejando aonde
tinha sido acertado. Os golpes seguintes também o deixaram aturdido. Alguma
coisa em sua mente o mandava reagir... mas tinha algo mais profundo... uma voz,
uma antiga voz... algo que o intimidava.
“Você nunca vai servir para nada, Cameron... nunca vai
sair da barra da saia de sua mãe. Minha herança vai desaparecer com você.”
- NUNCA!
Pegando Ferris de surpresa, Cameron deu uma sequencia de
golpes incríveis, algo que poderia ser coisa de cinema. O amigo foi jogado com
força para a lona e ficou deitado, sem se levantar.
Quando voltou a si, Cameron percebeu que Sloane estava
contando até dez, para encerrar o combate.
- Oito, nove e dez! O vencedor!
Sloane levantou o braço de Cameron e depois o abraçou e
beijou com força.
O advogado sentiu a adrenalina ainda forte em seu corpo e
percebeu que não se sentia assim fazia muito tempo. Ele foi até Ferris e o
ajudou a se levantar. O amigo sangrava de um corte no lábio superior e ainda
soltava algumas lágrimas por conta dos socos que recebeu no rosto.
- Nossa Cameron... agora entendi porque te chamam de “a
fera de Chicago”.
- Ah, nem me chamam assim!
- Chamam sim. Se você soubesse a fama que tem entre os
advogados... mas eu fico feliz que tenha vencido. Isso prova que é o melhor de
nós dois.
- Pare com isso... não temos que competir o tempo todo.
- Você tem razão... vamos devolver o carro do senhor Lee.
Já está ficando tarde.
- Até mais, Ferris. E não deixe de nos ligar. Vamos fazer
alguma coisa no final de semana.
- Podem deixar. E não sumam vocês também!
Enquanto seguia para casa, Ferris olhava o velho bairro
com suas cercas-vivas e todas as recordações que ficaram guardadas em sua
memória.
Era muito bom estar de paz e de bem com os melhores
amigos que tinha. Era como um peso enorme sendo retirado do peito. Ele só ficou
triste que não deu tempo de encontrar algum desfile e cantar um pouco. Ai o dia
seria perfeito.
- Te peguei agora, Ferris Bueller... não tem como
escapar!
Ferris olhou na varanda de sua casa e viu o Diretor
Rooney sentado na cadeira de balanço que seu pai mais adorava de usar nos
finais de semana, enquanto lia os jornais. O velho diretor estava claramente
abatido e muito suado, mas tentava manter um ar de dignidade e seriedade.
- Senhor Rooney, fico comovido que tenha vindo aqui me
visitar.
- Ferris... eu estou aqui desde o almoço. Sei que não
estava aqui antes, mesmo que sua irmã tenha me feito acreditar que estava.
- Mas eu estava...
- Não tente me enganar, Ferris... eu não sai daqui.
- Por isso não me viu sair pelos fundos, não é?
- O que?
- Sim, eu fui até o colégio, para passar a tarefa para os
meus alunos. Não te falaram?
- Ferris, você não vai me escapar dessa vez, não vai!
- Bem, foi bom falar com o senhor, mas eu tenho que
descansar agora. Não quer que eu falte mais, não é? Boa tarde.