- Escritório do Diretor Rooney.
- Grace? Cof, cof, aqui é o professor Ferris Bueller...
cof, cof... você poderia avisar ao diretor Rooney que terei que faltar hoje?
Acho que acordei gripado, mal estou conseguindo levantar da cama.
- Ó, tadinho professor! O senhor tem alguém ai para
cuidar de ti?
- Cof, cof... tenho sim... minha irmã está aqui do meu
lado.
- Ah, que bom. Mande um abraço para ela, faz tempo que
não a vejo.
- Cof, cof, pode deixar... Jeanie, Grace te mandou um
abraço. Obrigado Grace, bom dia.
- Quem era?
- Era o professor Ferris, está muito doente. Ele mandou
avisar que vai faltar hoje.
A cara do velho Rooney deixou claro para a secretária,
que já o conhecia há mais de quarenta anos, que aquilo não seria aceito
facilmente. Era a mesma cara que o velho diretor já fazia desde acontecimentos
fatídicos de um certo verão de 86. Uma cara de quem cismava com alguma coisa e
iria até o fim para descobrir a verdade.
- Ele está fazendo de novo, Grace! Posso sentir!
- Deixe disso, Rooney! Ele é um professor hoje em dia,
por Deus! O deixe em paz!
- NUNCA! Se antes como mau aluno ele já era um mau
exemplo, imagine agora se ele resolver fazer isso como professor! Teremos milhares
de Ferris Buellers andando por ai! Será o fim do nosso modo de vida.
- Ai que bom se isso acontecesse...
- O que disse?
- Nada não. O que o senhor pretende fazer?
- Chame um taxi. Eu vou até a casa de Ferris. Dessa vez
ele não me escapa. Pode ter certeza disso!
- Escritório de Advocacia Frye & Associados, em que
posso ajudá-lo?
- Eu gostaria de falar com o Cameron, por favor.
- E a quem devo anunciar?
- Diga para ele que é o seu cliente Ferris Buller.
- Só um momento senhor Buller.
Enquanto a musiquinha irritante de espera tocava, Ferris
sentia a antiga sensação de frio na barriga. Mas dessa vez não sabia se era por
conta de estar fazendo algo que não deveria ou por conta de tentar recriar os
velhos laços. Em sua cabeça o pensamento de que deveria resolver isso de uma
vez por todas não parava de incomodá-lo.
- Ferris?
A voz rouca do velho amigo o fez titubear por um
instante, mas logo o revigorante sentimento de estar aprontando alguma coisa
errada o tomou e o caminho a seguir se iluminou em sua frente.
- Olá Cameron. Você está muito ocupado?
- Um pouco. Preciso lidar com uma transação com clientes
de Hong Kong. Por quê? Você está precisando de algo?
- Para dizer a verdade sim... gostaria de me encontrar
com você e a Sloane. Tem como?
- Bem, é meio complicado... precisa ser hoje?
- Eu imagino que sim... uma vez que não fui trabalhar.
- O velho Ferris de que me lembro... aonde e quando?
- Pode ser daqui meia-hora, no museu de arte?
- Você está louco? Não posso sair assim, do nada, de meus
compromissos! E imagino que a Sloane muito menos!
- Vamos lá, Cameron... pelos velhos tempos. Te espero lá.
- Ferris, não... espere... e que tal se formos almoçar em
algum lugar bacana? Eu pago... eu... Ferris? Ferris? FERRIS!
- Calma! Eu não desliguei... daqui meia-hora, museu de
arte, na frente do “Tarde de Domingo”. Até mais.
- Você não muda, realmente...
- Não, acho que não... só estava meio adormecido, não
sei. Até mais.
- Até... e obrigado por me chamar para mais uma loucura.
- Não agradeça... é para isso que servem os amigos.
- Jeanie?
A irmã de Ferris estava aonde ele sempre a esperava
encontrar. Na frente da TV. Depois do caso com o jovem desajustado que conheceu
após uma rápida passagem pela delegacia (Charlie? Ele não tinha certeza),
Jeanie nunca mais foi a mesma. E hoje vivia com ele e tinha se tornado uma
senhora obesa e apática.
- O que foi Ferris? Você não deveria ir para o trabalho?
- Eu estou muito doente e não tenho condições de
trabalhar.
- Sei.
- Por isso vou ao hospital para receber tratamento. Se
alguém ligar avise, sim?
- Claro, é para isso que eu sirvo, não é? Cobrir o seu
rastro.
- Por isso que eu te amo, minha irmãzinha querida!
- Saia daqui logo, seu gazeteiro... e na volta me traga
Pepsi e um balde de frango.
- Com a pele crocante, eu sei como você gosta...
Enquanto saia, Ferris pensava em como a vida tinha
pregado peças em todos em que conhecia.
Claro que alguns tinham, com toda certeza, evoluído.
Cameron e Sloane eram provas vivas disso. Mas sua irmã,
Rooney e Grace... alguns colegas do antigo colégio... todos acabaram
naufragando na decadente e suburbana Chicago. Tentando não ter um ataque de
nostalgia, Ferris se pegou pensando se Cameron estaria hesitando como fazia
antigamente.
Talvez aquele fosse um Cameron diferente, mas Ferris
tinha uma esperança estranha de que algo do antigo amigo ainda tivesse
sobrevivido àquela vida de predador urbano que o outro levava atualmente,
mastigando os concorrentes e roubando mercado com sua competência e
agressividade.
Chegando ao museu, sentou em frente da obra favorita de
Cameron.
“Tarde de Domingo na Ilha de Jatte”, de Seurat, sempre
fascinava o amigo. Antigamente ele passava horas hipnotizado pela obra, a
olhando, como se dela pudesse extrair o significado de sua própria vida. Uma
vez, quando Ferris finalmente tomou coragem de o interrogar sobre aquele
comportamento, a resposta foi evasiva.
- Ela me diz que não posso fugir para sempre.
Ferris acreditava que talvez Cameron estivesse falando
sobre o pai. Sloane achava que ia muito além disso... ela sempre interpretava a
obsessão da obra como um lembrete de que Cameron não poderia fugir para sempre
das dificuldades da vida. E Ferris sabia que na verdade aquilo era mais sobre
ele do que sobre o amigo.
- Bom dia, mocinho. Você teve que esperar muito ai?
- Não muito... fico feliz que tenham vindo.
Ferris olhou para o casal e por um instante foi atingido
pela imagem mental que tinha de ambos como um soco no estômago. Sloane havia
envelhecido muito, mas ainda mantinha o seu charme e o olhar expressivo. Já
Cameron, contando os cabelos brancos e as linhas de expressão, parecia o
mesmo...
...A única diferença é que seus olhos azuis brilhavam com
mais intensidade.
- E então, senhor Ferris Bueller, o matador de aula. O
que tem nessa cabeça, se se importa em nos contar.
- Bem... eu parei para pensar e acredito que fui injusto
com vocês. Vocês foram as pessoas mais importantes de minha vida e por ciúmes
acabei me afastando. Eu quero resolver isso.
Sloane se aproximou do antigo namorado e o acariciou
suavemente no rosto.
Será que ele nunca se deu conta de como estava velho?
Diferente? Será que apenas com o olhar do outro, Ferris finalmente se daria
conta de que não era mais um adolescente ousado e que gostava de desafiar o sistema?
Ou era aquilo que faltava em sua vida? Aquela autoconsciência?
- Vocês me dariam mais uma chance?
As lágrimas tanto nos olhos de Sloane como nos de Cameron
sugeriam resposta suficiente para o professor de filosofia. Ele pegou na mão de
cada um e os foi puxando para fora. Eles apenas se entreolharam e não tentaram
resistir há o que o amigo poderia ter em mente.
- Vocês querem saber o que estou pensando? Estou pensando
que precisamos ter um dia único, que vai nos marcar para sempre... isso é o que
estou pensando. Espero que estejam preparados...
“Pois
aí vamos nós!”