sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Curtindo a Vida Adoidado...


- Escritório do Diretor Rooney.
            
- Grace? Cof, cof, aqui é o professor Ferris Bueller... cof, cof... você poderia avisar ao diretor Rooney que terei que faltar hoje? Acho que acordei gripado, mal estou conseguindo levantar da cama.
            
- Ó, tadinho professor! O senhor tem alguém ai para cuidar de ti?
            
- Cof, cof... tenho sim... minha irmã está aqui do meu lado.
            
- Ah, que bom. Mande um abraço para ela, faz tempo que não a vejo.
            
- Cof, cof, pode deixar... Jeanie, Grace te mandou um abraço. Obrigado Grace, bom dia.

            
- Quem era?
            
- Era o professor Ferris, está muito doente. Ele mandou avisar que vai faltar hoje.
            
A cara do velho Rooney deixou claro para a secretária, que já o conhecia há mais de quarenta anos, que aquilo não seria aceito facilmente. Era a mesma cara que o velho diretor já fazia desde acontecimentos fatídicos de um certo verão de 86. Uma cara de quem cismava com alguma coisa e iria até o fim para descobrir a verdade.
            
- Ele está fazendo de novo, Grace! Posso sentir!
            
- Deixe disso, Rooney! Ele é um professor hoje em dia, por Deus! O deixe em paz!
            
- NUNCA! Se antes como mau aluno ele já era um mau exemplo, imagine agora se ele resolver fazer isso como professor! Teremos milhares de Ferris Buellers andando por ai! Será o fim do nosso modo de vida.
            
- Ai que bom se isso acontecesse...
            
- O que disse?
            
- Nada não. O que o senhor pretende fazer?
            
- Chame um taxi. Eu vou até a casa de Ferris. Dessa vez ele não me escapa. Pode ter certeza disso!



- Escritório de Advocacia Frye & Associados, em que posso ajudá-lo?
            
- Eu gostaria de falar com o Cameron, por favor.
            
- E a quem devo anunciar?
            
- Diga para ele que é o seu cliente Ferris Buller.
            
- Só um momento senhor Buller.
            
Enquanto a musiquinha irritante de espera tocava, Ferris sentia a antiga sensação de frio na barriga. Mas dessa vez não sabia se era por conta de estar fazendo algo que não deveria ou por conta de tentar recriar os velhos laços. Em sua cabeça o pensamento de que deveria resolver isso de uma vez por todas não parava de incomodá-lo.
            
- Ferris?
            
A voz rouca do velho amigo o fez titubear por um instante, mas logo o revigorante sentimento de estar aprontando alguma coisa errada o tomou e o caminho a seguir se iluminou em sua frente.
            
- Olá Cameron. Você está muito ocupado?
            
- Um pouco. Preciso lidar com uma transação com clientes de Hong Kong. Por quê? Você está precisando de algo?
            
- Para dizer a verdade sim... gostaria de me encontrar com você e a Sloane. Tem como?
            
- Bem, é meio complicado... precisa ser hoje?
            
- Eu imagino que sim... uma vez que não fui trabalhar.
            
- O velho Ferris de que me lembro... aonde e quando?
            
- Pode ser daqui meia-hora, no museu de arte?
            
- Você está louco? Não posso sair assim, do nada, de meus compromissos! E imagino que a Sloane muito menos!
            
- Vamos lá, Cameron... pelos velhos tempos. Te espero lá.
            
- Ferris, não... espere... e que tal se formos almoçar em algum lugar bacana? Eu pago... eu... Ferris? Ferris? FERRIS!
            
- Calma! Eu não desliguei... daqui meia-hora, museu de arte, na frente do “Tarde de Domingo”. Até mais.
            
- Você não muda, realmente...
            
- Não, acho que não... só estava meio adormecido, não sei. Até mais.
            
- Até... e obrigado por me chamar para mais uma loucura.
            
- Não agradeça... é para isso que servem os amigos.



- Jeanie?
            
A irmã de Ferris estava aonde ele sempre a esperava encontrar. Na frente da TV. Depois do caso com o jovem desajustado que conheceu após uma rápida passagem pela delegacia (Charlie? Ele não tinha certeza), Jeanie nunca mais foi a mesma. E hoje vivia com ele e tinha se tornado uma senhora obesa e apática.
            
- O que foi Ferris? Você não deveria ir para o trabalho?
            
- Eu estou muito doente e não tenho condições de trabalhar.
            
- Sei.
            
- Por isso vou ao hospital para receber tratamento. Se alguém ligar avise, sim?
            
- Claro, é para isso que eu sirvo, não é? Cobrir o seu rastro.
            
- Por isso que eu te amo, minha irmãzinha querida!
            
- Saia daqui logo, seu gazeteiro... e na volta me traga Pepsi e um balde de frango.
            
- Com a pele crocante, eu sei como você gosta...
            
Enquanto saia, Ferris pensava em como a vida tinha pregado peças em todos em que conhecia.
            
Claro que alguns tinham, com toda certeza, evoluído.
            
Cameron e Sloane eram provas vivas disso. Mas sua irmã, Rooney e Grace... alguns colegas do antigo colégio... todos acabaram naufragando na decadente e suburbana Chicago. Tentando não ter um ataque de nostalgia, Ferris se pegou pensando se Cameron estaria hesitando como fazia antigamente.
            
Talvez aquele fosse um Cameron diferente, mas Ferris tinha uma esperança estranha de que algo do antigo amigo ainda tivesse sobrevivido àquela vida de predador urbano que o outro levava atualmente, mastigando os concorrentes e roubando mercado com sua competência e agressividade.
            
Chegando ao museu, sentou em frente da obra favorita de Cameron.
            
“Tarde de Domingo na Ilha de Jatte”, de Seurat, sempre fascinava o amigo. Antigamente ele passava horas hipnotizado pela obra, a olhando, como se dela pudesse extrair o significado de sua própria vida. Uma vez, quando Ferris finalmente tomou coragem de o interrogar sobre aquele comportamento, a resposta foi evasiva.
            
- Ela me diz que não posso fugir para sempre.
            
Ferris acreditava que talvez Cameron estivesse falando sobre o pai. Sloane achava que ia muito além disso... ela sempre interpretava a obsessão da obra como um lembrete de que Cameron não poderia fugir para sempre das dificuldades da vida. E Ferris sabia que na verdade aquilo era mais sobre ele do que sobre o amigo.
            
- Bom dia, mocinho. Você teve que esperar muito ai?
            
- Não muito... fico feliz que tenham vindo.
            
Ferris olhou para o casal e por um instante foi atingido pela imagem mental que tinha de ambos como um soco no estômago. Sloane havia envelhecido muito, mas ainda mantinha o seu charme e o olhar expressivo. Já Cameron, contando os cabelos brancos e as linhas de expressão, parecia o mesmo...
            
...A única diferença é que seus olhos azuis brilhavam com mais intensidade.
            
- E então, senhor Ferris Bueller, o matador de aula. O que tem nessa cabeça, se se importa em nos contar.
            
- Bem... eu parei para pensar e acredito que fui injusto com vocês. Vocês foram as pessoas mais importantes de minha vida e por ciúmes acabei me afastando. Eu quero resolver isso.
            
Sloane se aproximou do antigo namorado e o acariciou suavemente no rosto.
            
Será que ele nunca se deu conta de como estava velho? Diferente? Será que apenas com o olhar do outro, Ferris finalmente se daria conta de que não era mais um adolescente ousado e que gostava de desafiar o sistema? Ou era aquilo que faltava em sua vida? Aquela autoconsciência?
            
- Vocês me dariam mais uma chance?
            
As lágrimas tanto nos olhos de Sloane como nos de Cameron sugeriam resposta suficiente para o professor de filosofia. Ele pegou na mão de cada um e os foi puxando para fora. Eles apenas se entreolharam e não tentaram resistir há o que o amigo poderia ter em mente.
            
- Vocês querem saber o que estou pensando? Estou pensando que precisamos ter um dia único, que vai nos marcar para sempre... isso é o que estou pensando. Espero que estejam preparados...

“Pois aí vamos nós!”

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Curtindo a vida adoidado?


- Sara Parkinson?
       
     - Presente!

            - Suzan Sarandon?

            - Aqui!

            - Thaena Stieg?

            - Eu!

            Conforme ia seguindo pela lista de chamada, o professor Ferris Bueller se perguntava o que poderia ter dado tão errado em sua vida.

            Há trinta anos, ele tinha certeza que seria alguém importante.

            Então em sua cabeça não fazia sentido o fato de ter virado professor de filosofia. Tudo bem que ele acabou indo para uma área que não tinha como se tornar o presidente da república, muito menos o presidente da ONU, mas Ferris tinha para si que não estava atrás de respostas e sim de perguntas.

            Os seus amigos o haviam alertado.

            Cameron acabou se tornando um advogado importante, usando a herança do pai para construir um dos maiores escritórios de advocacia de Chicago. Hoje em dia o amigo (se ele ainda poderia ser considerado isso), estava bem mudado. De uma pessoa melindrosa, Cameron se tornou um homem prático e casado.

            Casado com Sloane.

            Ferris ainda sentia a dor em seu peito toda vez que pensava no caso. Era como uma facada bem dada pelo ex-amigo, um sentimento ruim que parecia, mesmo depois de vinte anos, que nunca iria passar.

            Ele tentava, frustradamente, não culpar os dois.

            Cameron se tornou algo que Sloane sempre achou que Ferris seria. Um cara importante, com dinheiro e com reconhecimento. E a ex-namorada de Ferris acabou se tornando uma artista reconhecida e parte do reconhecimento veio por conta da segurança e dos contatos que Cameron lhe forneceram.

            Algo que Ferris nunca conseguiu lhe dar.

            - Ulma Hatt?

            - Aqui!

            - Veruska Salt?

            - Presente?

            - Xarles Xavier?

            - Eu!

            Após findar a lista de chamada, Ferris se preparou para começar a aula.

            - Alguém se lembra aonde paramos ontem? Alguém? Alguém?

            - Paramos na caverna de Sócrates.

            - Muito bem. Então ontem eu lhes dizia que Sócrates pregava para os demais cidadãos de Atenas, no mercado da cidade, sobre a incapacidade dos demais de enxergarem a verdade, como pessoas presas em uma caverna que só conseguiam ver as sombras do mundo que se faziam no seu lado de fora. Alguém sabe o que isso quer dizer?

            Como sempre nenhuma resposta vinha dos alunos entediados.

- Alguém? Alguém?

            Na verdade o próprio Ferris estava entediado. Ele achava que ser professor não poderia ser tão ruim. Se pegava pensando em seu antigo professor de história, com medo de cada ano que passava estar ficando parecido com ele, mas o que poderia fazer? Os alunos eram apáticos, não importava o que fizesse.

            Ou o problema era ele?

            “Professor Ferris Bueller, por favor se dirija até a diretoria.”

            - Ah... pessoal, se comportem, eu já volto.

            Ferris respirou profundamente e se dirigiu até a sala do diretor.

            Ele imaginava qual poderia ser a queixa de Rooney dessa vez. O velho diretor já deveria estar aposentado há mais de quinze anos, mas ele nunca conseguiu se desligar da escola. Ele sempre jogava a culpa sobre Ferris, dizendo que nunca deixaria outros alunos seguirem o seu exemplo.

            O professor imaginava que mais uma vez iria ouvir a ladainha de como não estava sendo um bom professor, de como Rooney nunca deveria o ter aceitado em sua escola e todas aquelas besteiras.

            A cada passo que dava o velho Ferris se sentia cada vez mais cansado.

            A verdade é que olhar para os antigos corredores, com seus armários descascando cada um deles com os velhos nomes ainda rabiscados de seu tempo de aluno, o enchiam de um saudosismo angustiante. Ele imaginava se não tinha sido tal saudosismo que o havia levado para lá, a velha escola.

            E decidiu que, como antigamente, iria dar um jeito nas coisas.

            Pois no dia seguinte iria matar aula.